UCAD – Unidade Científica e Ambiental Desterro

A Unidade Científica e Ambiental Desterro (UCAD) é uma área de preservação ambiental pertencente à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e gerenciada pelo Centro de Ciências Biológicas (CCB). Sua finalidade primordial é promover a preservação, recuperação e conservação da biodiversidade da Floresta Ombrófila Densa no Bioma de Mata Atlântica, funcionando como um laboratório vivo para estudos científicos e acadêmicos da Universidade.

Na sua criação, recebeu o nome de Unidade de Conservação Ambiental Desterro, pois o objetivo era registrar oficialmente no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC – Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000), mas entraves burocráticos dificultaram o processo e esse registro não foi possível, por isso, o nome oficial está sendo atualizado, mantendo-se a sigla já consagrada.

Professora Maike Hering de Queiroz (Fonte: acervo da família)

Professora Maike Hering de Queiroz
(Fonte: acervo da família)

Foi idealizada pela professora Maike Hering de Queiroz (in memoriam), com o propósito de criar um laboratório de campo de grande escala, utilizando a própria área de floresta e seus recursos como infraestrutura essencial para atividades acadêmicas, pesquisas e ações de educação ambiental. O espaço foi concebido para funcionar sob as diretrizes de uma Unidade de Conservação, visando à preservação da Mata Atlântica, à regeneração da vegetação nativa e à promoção de um ambiente dedicado à realização de pesquisas científicas, projetos de extensão, práticas didáticas e atividades educativas voltadas à comunidade.

Placa de inauguração da UCAD (Foto: Silvia Venturi)

Placa de inauguração da UCAD (Foto: Silvia Venturi)

Dessa forma, a área foi adquirida pelo Governo do Estado em 1995 e doada à Universidade Federal de Santa Catarina, que criou oficialmente a UCAD e aprovou o seu regimento interno inicial em 09 de maio de 1996 pela Portaria Nº 0521/GR/96 do Reitor da UFSC, como um Projeto Especial de Ensino, Pesquisa e Extensão. Em 09 de novembro de 2000, pela Portaria nº 0685/GR/2000, a UCAD foi vinculada ao Centro de Ciências Biológicas (CCB).

Recentemente, a sua área foi incorporada no Refúgio de Vida Silvestre Municipal Meiembipe (REVIS Meiembipe), criado pelo Decreto Municipal Nº 23.324/2021. Com isso, passou a estar sujeita às normas específicas do REVIS e às diretrizes do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), estando protegida e monitorada como área de conservação pela Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis – FLORAM.

Onde fica?

A UCAD está localizada na porção centro-norte da Ilha de Santa Catarina, na junção dos bairros Saco Grande, Cacupé, Santo Antônio de Lisboa, Ratones e Costa da Lagoa, com acesso pela Rodovia José Carlos Daux, número 5800. Está instalada em uma área de 491,55 hectares (equivalente a 4,9 km²), o que representa aproximadamente 1,2% da superfície total da ilha, e possui um perímetro de 15,657 km. Recentemente, a sua área foi incorporada no Refúgio de Vida Silvestre Municipal Meiembipe (REVIS Meiembipe), criado pelo Decreto Municipal Nº 23.324/2021. Com isso, passou a estar sujeita às normas específicas do REVIS e às diretrizes do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), estando protegida como área de conservação, embora não seja formalmente reconhecida como uma Unidade de Conservação segundo a definição legal.

Mapa de localização da UCAD (Fonte: Adaptado de Programa CELESC de Pesquisa e Desenvolvimento – Projeto ANEEL 0395-016-2003 – elaborado por Grupo Gestão do Espaço ECV/CTC/UFSC)

Mapa de localização da UCAD (Fonte: Adaptado de Programa CELESC de Pesquisa e Desenvolvimento – Projeto ANEEL 0395-016-2003 – elaborado por Grupo Gestão do Espaço ECV/CTC/UFSC)

Sede da UCAD - Foto de Silvia Venturi

Sede da UCAD – Foto de Silvia Venturi

A UCAD conta com uma pequena área de estacionamento junto ao portão de entrada, seguida por uma via de

aproximadamente 100 metros que leva à sede. A construção principal abriga uma sala de aula com capacidade para cerca de 30 pessoas, dois banheiros com chuveiro para uso dos visitantes, um escritório e uma sala de apoio com banheiro e copa.

Atualmente, duas trilhas são mantidas pela gestão para fins educativos e científicos. A Trilha do Jacatirão é voltada para visitas educativas, especialmente de escolas, e leva a um mirante no morro, de onde é possível avistar toda a Baía Sul da Ilha de Santa Catarina, com destaque para o manguezal do Saco Grande.

Já a Trilha Maike é destinada às atividades de pesquisa, passando por rios, grutas e por uma impressionante figueira com grandes raízes tabulares — ponto onde os visitantes costumam parar para registros fotográficos.

Vista da Baía Sul e Manguezal do Saco Grande a partir do mirante ao final da Trilha do Jacatirão. Na foto, Silvanio, o servidor encarregado da manutenção e guia da UCAD (Foto: Silvia Venturi)

Vista da Baía Sul e Manguezal do Saco Grande a partir do mirante ao final da Trilha do Jacatirão. Na foto, Silvanio, o servidor encarregado da manutenção e guia da UCAD (Foto: Silvia Venturi)

Importância Ambiental

Rã-manezinha: Espécie de ocorrência exclusiva na Ilha de Santa Catarina, rara e ameaçada de extinção, descoberta em 1996 por Paulo Garcia, atualmente professor do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC. Um dos seres que vive na UCAD e depende da preservação desse ambiente para sua sobrevivência (Foto: Pedro Peloso/Projeto DoTS, fonte: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2020/12/15/ra-vira-simbolo-da-cidade-de-florianopolis-sc.ghtml)

Rã-manezinha: Espécie de ocorrência exclusiva na Ilha de Santa Catarina, rara e ameaçada de extinção, descoberta em 1996 por Paulo Garcia, atualmente professor do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC. Um dos seres que vive na UCAD e depende da preservação desse ambiente para sua sobrevivência (Foto: Pedro Peloso/Projeto DoTS, fonte: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2020/12/15/ra-vira-simbolo-da-cidade-de-florianopolis-sc.ghtml)

A UCAD desempenha um papel essencial na conservação da biodiversidade da Ilha de Santa Catarina, atuando como um importante corredor ecológico e como refúgio para espécies da flora, fauna e funga, muitas delas dependentes de florestas maduras para sobreviver. Entre essas, estão espécies raras, vulneráveis, ameaçadas de extinção e exclusivas da ilha. A proteção desse extenso remanescente de Floresta Ombrófila Densa contribui diretamente para a manutenção desses ecossistemas. A área também abriga formações graníticas naturais — como cavernas, grutas, tocas e furnas — originadas por processos erosivos, que servem de abrigo para uma fauna diversificada, conforme identificado no Relatório Técnico nº 001/2020 – DEPUC, elaborado para a criação do REVIS Meiembipe.

Além da conservação da biodiversidade, a UCAD é estratégica para a proteção dos recursos hídricos e para o abastecimento de água das comunidades do entorno. Localizada em áreas elevadas e densamente vegetadas, favorece a formação de numerosas nascentes, muitas das quais alimentam cursos d’água que deságuam em ecossistemas sensíveis, como os manguezais do Saco Grande e de Ratones. Essa dinâmica contribui tanto para a preservação desses ambientes quanto para o fornecimento de água potável às comunidades do entorno, inclusive para empresas que dependem diretamente desse recurso como matéria-prima.

Pesquisa Científica

Desde sua criação, a UCAD tem servido como espaço para uma ampla variedade de projetos acadêmicos, incluindo iniciação científica, trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado, teses de doutorado e pesquisas de pós-doutorado, em diversas áreas do conhecimento relacionadas à biodiversidade. Os estudos realizados abrangem levantamentos e inventários de espécies de plantas, fungos, insetos, aves e mamíferos, além de pesquisas em ecologia, medicina, medicina forense, geologia, geografia, gestão ambiental e urbana, turismo, engenharia, entre outras.

Como não havia, até recentemente, um sistema de acompanhamento e catalogação dos trabalhos desenvolvidos na área, é possível que existam ainda muitos estudos não localizados. Os levantamentos mais recentes identificaram:

  • 33 Trabalhos de Conclusão de Curso;
  • 31 Dissertações de Mestrado;
  • 5 Teses de Doutorado;
  • 1 Pesquisa de Pós-Doutorado;
  • 37 publicações científicas, incluindo artigos, apresentações em eventos, comunicações científicas e manuais

Destaques científicos

A UCAD tem sido palco de descobertas científicas de grande relevância. Em 2015, foi identificada na área a menor flor de orquídea do mundo — Campylocentrum insulare — uma espécie sem folhas, composta apenas por raízes e flores com cerca de 1 mm de diâmetro. Essa descoberta ganhou destaque na mídia e atraiu atenção nacional e internacional.

Campylocentrum insulare: A menor flor de orquídea do mundo, descoberta na UCAD. Fonte: Siqueira, C.E.; Pessoa, E.; Zanin, A.; Alves, M. (2015). The Smallest Angraecoid Species from the Neotropics: A New Campylocentrum (Orchidaceae) from a Brazilian Subtropical Forest. Systematic Botany (2015), 40(1): pp. 79–82. Fotos: Carlos Eduardo Vilas Boas de Siqueira)

Campylocentrum insulare: A menor flor de orquídea do mundo, descoberta na UCAD. Fonte: Siqueira, C.E.; Pessoa, E.; Zanin, A.; Alves, M. (2015). The Smallest Angraecoid Species from the Neotropics: A New Campylocentrum (Orchidaceae) from a Brazilian Subtropical Forest. Systematic Botany (2015), 40(1): pp. 79–82. Fotos: Carlos Eduardo Vilas Boas de Siqueira)

Armadilhas fotográficas instaladas por projetos de monitoramento de fauna resultaram em algumas descobertas de destaque, entre elas a irara (Eira barbata), registrada em 2009, e o macuco, que até então tinham a ocorrência somente relatada por entrevistas com moradores.

Macuco (Tinamus solitarius) na Unidade de Conservação Ambiental Desterro (UCAD) (Foto Acervo Projeto Fauna Floripa)

Macuco (Tinamus solitarius) na Unidade de Conservação Ambiental Desterro (UCAD) (Foto Acervo Projeto Fauna Floripa)

Irara (Fonte: Foto de Davis Cook, obtida em https://faunanews.com.br/olha-o-bicho-irara/)

Irara – Eira barbata (Fonte: Foto de Davis Cook, obtida em https://faunanews.com.br/olha-o-bicho-irara/)

Além desses, pesquisas realizadas na UCAD já revelaram 29 novas espécies para a ciência e 48 novos registros, representando novas citações para diferentes escalas geográficas — Brasil, Região Sul, Estado de Santa Catarina e Grande Florianópolis, ampliando significativamente o conhecimento científico sobre a biodiversidade local.

Visitas

Nos primeiros anos de existência, foi implementado na UCAD um projeto de extensão voltado à criação de uma floresta-escola, com o objetivo de receber estudantes de escolas da região para atividades de educação ambiental na Trilha do Jacatirão. Embora não haja registros precisos sobre o número de visitas realizadas, uma caixa contendo mais de 400 desenhos e relatos de estudantes revela um período de intensa atividade, marcado por vivências significativas e pela semeadura de conhecimento e afeto pela floresta.

Registro de visitas de escolas na UCAD em 1999 (Fotos: Zé Paiva)

Registro de visitas de escolas na UCAD em 1999 (Fotos: Zé Paiva)

Registro de visitas de escolas na UCAD em 1999 (Fotos: Zé Paiva)

Desenhos de estudantes após visita à trilha da UCAD (Acervo UCAD)

Desenhos de estudantes após visita à trilha da UCAD (Acervo UCAD)

Atualmente, a UCAD recebe principalmente visitas didáticas vinculadas a disciplinas de graduação e pós-graduação da UFSC. No entanto, há o desejo de reestruturar a área para retomar as atividades externas, com infraestrutura adequada, segurança e qualidade

Desenhos de estudantes após visita à trilha da UCAD (Acervo UCAD)

Desenhos de estudantes após visita à trilha da UCAD (Acervo UCAD)

, ampliando novamente o acesso da comunidade ao espaço e fortalecendo sua vocação educativa.

Aulas práticas na UCAD (Fotos: Silvia Venturi)

Aulas práticas na UCAD (Fotos: Silvia Venturi)

Aulas práticas na UCAD (Fotos: Silvia Venturi)

Curiosidades

Em 12 de abril de 1980, uma forte tempestade resultou em um grave acidente aéreo em uma área que hoje integra a UCAD. O voo 303 da Transbrasil colidiu com o Morro da Pedra de Listra, no bairro Ratones, causando o maior desastre aéreo da história de Santa Catarina. Dos 51 passageiros e oito tripulantes a bordo, apenas quatro sobreviveram. À época, o acidente foi considerado o pior já ocorrido em território nacional e o segundo maior da aviação brasileira.

Estudiosos ainda se debruçam sobre a história buscando desvendar as causas do acidente e outros mistérios ainda não completamente esclarecidos.

No local, a população instalou crucifixos como uma forma de memorial pelas vítimas do acidente, e, recentemente, foi fixada uma placa com os nomes das vítimas.

Queda de avião do Voo303 da Transbrasil em Florianópolis, 1980 (Fonte: Jornal O Estado, acessado em https://ndmais.com.br/cultura/misterio-em-fotos-queda-do-aviao-no-bairro-ratones-em-florianopolis-completa-41-anos/)

Queda de avião do Voo303 da Transbrasil em Florianópolis, 1980 (Fonte: Jornal O Estado, acessado em https://ndmais.com.br/cultura/misterio-em-fotos-queda-do-aviao-no-bairro-ratones-em-florianopolis-completa-41-anos/)

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